CARANDIRU

Rodrigo Santoro (à esq.), no filme Carandiru.

por Mariane Bigio

1. Análise Estrutural

Título: Carandiru, de Hector Babenco, 2003, 148 minutos, cor.

Gênero: Drama (baseado no livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella).

Elenco: Rodrigo Santoro (Lady Di), Gero Camilo (Sem Chance), Milton Gonçalves (Chico), Luiz Carlos Vasconcelos (Médico), Maria Luisa Mendonça (Dalva), Caio Blat (Deusdete), Lázaro Ramos (Ezequiel), Wagner Moura (Zico).

Sinopse: Numa cela da Casa de Detenção de São Paulo, o popular Carandiru, dois detentos (Lula e Peixeira) se enfrentam num acerto de contas. O clima é tenso. Outro detento, Nego Preto, espécie de “juiz” para desavenças internas, soluciona o caso em tempo de dar “boas vindas” ao Médico, recém-chegado e disposto a realizar trabalho de prevenção à AIDS na penitenciária. O Médico depara-se, no maior presídio da América Latina, com problemas gravíssimos: superlotação, instalações precárias, doenças como tuberculose, leptospirose, caquexia, além de pré-epidemia de Aids. Os encarcerados lamentam, além da falta de assistência médica, de assistência jurídica. O Carandiru, com seus mais de sete mil detentos, constitui-se em grande desafio para o Doutor recém-chegado. Mas bastam alguns meses de convivência para que ele perceba algo que o transformará: mesmo vivendo situação-limite, os internos não são figuras demoníacas. No convívio com os presos que visitam seu improvisado consultório, o Médico testemunha solidariedade, organização e, acima de tudo, grande disposição de viver.

2. Análise Significativa

Em foco: personagem Lady Di, interpretada por Rodrigo Santoro.

Lady Di, é um detento do Carandiru, transexual, de silicone nos seios, roupas e trejeitos femininos – a personagem refere-se a si mesma sempre no gênero feminino -, além de uma cela decorada com apetrechos também femininos. A sua gestualidade pode ser considerada estereotipada – como a classificaria Antônio Moreno, autor no qual nos baseamos para realizar as análises fílmicas – embora não se torne irreal em função desse exagero.

Lady Di, nasceu Dirceu, classe média baixa – contexto social constatado quando da visita de seus pais ao presídio – família tradicional, pai que não aceita sua orientação, e mãe mais condescendente e que busca apaziguar o relacionamento pai-filho.
Conhecemos essa personagem coadjuvante, quando Lady Di dispõe-se a fazer o teste do HIV, que vem sendo realizado pelo protagonista da trama, o médico recém-chegado, disposto a ajudar a melhorar a situação higiênica e da saúde dos detentos. Nesse momento, Lady Di expõe seu histórico sexual: uma vida de prostituição e mais de dois mil parceiros dentro do presídio.

Por ser a trama baseada em fatos reais, talvez não seja pertinente criticar a visão a que o leitor é levado a ter – ao que parece, a personagem contribui a uma concepção pejorativa na qual se associa a transsexualidade, e mesmo a homossexualidade, à prostituição.

No entanto, em nenhum momento sabemos o pôrque de ser Lady Di um dos detentos do Carandiru. O crime cometido por ele é subjugado pelo seu aparente bom caráter, delicadeza, e esclarecimento ao querer fazer o teste do HIV.

O casamento parece ser, também, mais uma via de redenção da personagem. Lady Di, conhece Matias, apelidado de “Sem Chance”, detento auxiliar do médico, por quem se apaixona. Matias, vivido pelo ator Gero Camilo, corresponde a essa paixão, e junto a Lady Di, faz o teste de HIV, na intenção de casar-se, formalmente, com ele.

O casamento se concretiza, tradicionalmente – com direito a vestido de noiva, terno de noivo, buquê, música e alianças, além de um pedido formal feito por Matias à família de Lady Di. A cerimônia ocorre dentro do próprio presídio, e é aí que acontece o único beijo, em todo o filme, entre as personagens – espera-se que a inexistência de maiores contatos físicos entre o casal, durante o enredo, seja devido à “coadjuvância” de sua história, e não a um tabu envergonhado.

O Amor é algo que vale salientar: as personagens estão envolvidas afetivamente com grande intensidade, e se amam, acima de qualquer desejo sexual. Uma das últimas cenas do filme, é justamente um depoimento, feito por esses detentos, que sobreviveram à invasão da tropa de choque ao presídio. Nele, Matias alega que ambos só não foram mortos por que a polícia “não teve coragem de matar uma mulher” – ele não fala que a polícia “pensou ser Lady Di uma mulher”, ele, portanto, afirma ser seu companheiro uma mulher, o que obscurece a diferença entre o transexual e a mulher – enquanto Lady Di afirma que foi “o nosso Amor que nos salvou”, demonstrando o laço sentimental existente entre o casal.

3. Considerações Finais

O filme traz uma visão não pejorativa da homossexualidade se considerarmos o seu todo. O mais interessante é a conexão feita entre a trama do casal gay e a AIDS: ambos, esclarecidos, fizeram o teste antes de formalizarem o relacionamento, mesmo tendo Lady Di um histórico propício ao contágio da doença, ele não é portador do vírus.

Carandiru traz à tona a “realidade sexual” de um presídio com mais de 7.000 detentos do sexo masculino. Muitos deles buscam em outros homens a satisfação sexual, embora não sejam gays. Outros, como Matias, acabam descobrindo algo mais além do desejo sexual por alguém do mesmo sexo: O Amor.

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