1. Análise Estrutural
Título: Amarelo Manga, de Cláudio Assis, 2003, 100 minutos, cor.
Gênero: Drama
Elenco e personagens: Matheus Nachtergaele (Dunga), Jonas Bloch (Isaac), Dira Paes (Kika), Chico Diaz (Wellington), Leona Cavalli (Lígia), Magdale Alves (Dayse).
Sinopse: No subúrbio da capital pernambucana, Recife, cinco personagens são apresentados: Dunga (Matheus Nachtergaele), o cozinheiro gay do Texas Hotel apaixonado pelo açougueiro Wellington; Wellington (Chico Diaz), um homem mulherengo, que enaltece o comportamento recatado da mulher, Kika (Dirá Paes), mas mantém uma amante (Magdale Alvez); Lígia (Leona Cavalli), dona de um boteco e Issac (Jonas Bloch) um hóspede do Texas Hotel, que sente prazer em atirar em cadáveres. A partir dessa apresentação acompanhamos um dia na vida desses personagens. Um dia de mudanças e repetições.
2. Análise Significativa
A história do filme se desenvolve a partir de uma narrativa circular que começa e termina com duas idéias: desnudar o cotidiano marginal de uma grande capital (Recife), e um tom documental para reforçar a narrativa ficcional. Na verdade, o filme exercita o uso do chulo, mas na verdade do carnal, do animalesco, como uma luta severa entre o eterno retorno e o desejo sexual. Por isso podemos falar que se trata de um filme realista, mas um realismo sujo, despudorado, amarelado, que não tem vergonha de mostrar as mazelas do homem.
O que movimenta todo o filme são os personagens e o impulso destes guiados pela lascívia patológica. Dentre eles destacamos Dunga o cozinheiro do Texas Hotel interpretado por Matheus Nachtergaele, personagem que não hesita em passar por cima da felicidade dos outros para celebrar a sua que está na carne que o funcionário do matadouro fornece ao hotel.
Como todos os demais personagens o contexto social de Dunga é mais um personagem do longa que tem a marca da marginalidade estampada no comportamento, na vestimenta e nos desejos. Desse modo, Dunga é visto com um alienado guiado por pulsões sexuais e é caracterizado como um homem num misto de ingenuidade lasciva e delicadeza cruel. A utilização de gestos delicados no andar e no falar indica que o personagem é homossexual, embora as roupas curtas, apertadas e tamancos já antecipam visualmente a orientação sexual de Dunga.
A narrativa fragmentada não deixa espaço para um protagonista. Por isso, podemos dizer que há co-protagonistas e Dunga é um deles. O objetivo desse personagem é um só: conquistar Welligton. Sempre é cantado pelo cozinheiro, quando aquele vai entregar a carne no hotel, o açougueiro não demonstra nenhum afeto pelo personagem de Nachtergaele. No decorrer da trama, Dunga, numa tentativa de acabar com o caso e o casamento de Wellington, manda uma carta para Kika dizendo a hora e o local onde o açougueiro marcou um encontro com a amante. O plano dá certo e Welligton, desamparado, vai chorar as mágoas no ombro de Dunga, este tenta se aproveitar da situação, mas apesar de frágil emocionalmente, o açougueiro não cede aos desejos do cozinheiro.
3. Considerações Finais
Por fim, Amarelo Manga é uma radical intervenção do cinema na realidade do povo brasileiro, onde o homem preso em uma rotina vivendo “apenas mais um dia” é visto como um animal degenerado. O filme vê que o humano não tem pureza, não tem limpeza, mas é sujo, perverso e guiado por instintos bestiais para saciar o desejo carnal em prol da felicidade individual. Nesse contexto, Dunga, apesar de ser retratado de forma esteriotipada, no vestir e no agir, ele é mais um dos marginalizados presentes no mosaico social da cidade de Recife.
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