
por Anderson Barretto
1. Análise Estrutural
Título: A Partilha, de Daniel Filho, 2001, 96 minutos, cor.
Gênero: Comédia
Elenco e personagens: Selma (Glória Pires), Regina (Andrea Beltrão), Laura (Paloma Duarte), Lúcia (Lilia Cabral), Herson Capri (Luiz Fernando), Dênis Carvalho (Carlos), Marcello Antony (Bruno Diegues), Chica Xavier (Bá Toinha), Fernanda Rodrigues (Simone), Guta Stresser (Célia).
Sinopse: O longa é focado na relação entre quatro irmãs – Selma, Regina, Laura e Lúcia – que se reúnem após a morte da mãe para negociar a herança, um apartamento em Copacabana. Baseado na peça homônima de Miguel Falabella, o filme, que traz abertamente a homossexualidade feminina, foi um grande sucesso de público, tornando-se o filme brasileiro mais representativo, a partir da década de 90, a tratar o tema com naturalidade.
2. Análise Significativa
Laura, interpretada por Paloma Duarte, é a mais jovem das quatro irmãs e sempre foi considerada por todas, inclusive por ela mesma, como uma pessoa “diferente”. Apesar do fato de as quatro mulheres serem as protagonistas do filme e de a narrativa estar centrada em sua maior parte na personagem Selma (Glória Pires), a personagem homossexual Laura tem um grande destaque no enredo. Lésbica, jornalista, de classe média, Laura é apresentada de maneira não-estereotipada, tem um gestual natural, contido, personalidade reclusa, intelectual, séria e firme. A interpretação de Paloma Duarte é bastante precisa, sem exageros, trazendo uma representação de uma lésbica, que antes de ser homossexual, é acima de tudo, uma mulher. Laura leva uma vida ocupada com o trabalho e seu relacionamento com sua namorada, interpretada por Guta Stresser. O dilema de Laura é justamente a oportunidade de estudar na Alemanha, o que a faria terminar o relacionamento, uma vez que a sua namorada não deseja sair do Brasil. O dinheiro da venda do apartamento da mãe falecida permitiria a sua ida para a Europa, porém a faria abandonar a sua companheira.
Por outro lado, a caracterização e o figurino, isto é, a subgestualidade na representação das duas homossexuais no filme, em comparação com as outras mulheres da narrativa, é um pouco estereotipada. Ou seja, apesar de não haver exageros, há uma diferenciação evidente entre as lésbicas e as irmãs mais velhas de Laura. Assim, Selma, Regina e Lúcia usam sempre vestidos, muitos adereços e acessórios, compondo um visual bastante colorido, com cores quentes na maioria das suas roupas, mulheres visivelmente preocupadas com a aparência física, com a beleza pessoal. Já Laura e sua namorada têm um figurino bastante sóbrio e discreto, o que a produção do filme pode ter considerado coerente, pelo fato de o casal não querer chamar a atenção das outras. Porém, há uma brusca diferença entre o figurino das lésbicas e das heterossexuais. O vestuário das personagens homossexuais é, em sua maioria, preto (especialmente em Guta Stresser, que ainda por cima tem os cabelos pintados em vermelho vivo, numa clara tentativa de mostrar a personagem como uma metáfora da busca por uma identidade). O figurino das duas lésbicas não considera a preocupação feminina com a beleza, esse fato tem um certo tom generalizante ao indiretamente sugerir que as lésbicas são, muitas vezes, vistas como “machonas” e portanto, pouco se importam com a aparência física, numa palpável ausência de vaidade – o que também pode induzir, implicitamente, a uma não-aceitação de si mesmas.
Os movimentos corporais de Paloma Duarte são firmes, rígidos, algumas vezes bruscos, enfatizados pela força interpretativa da atriz, porém, não chegam a colocar a personagem Laura como uma lésbica “durona”, “quadrada”, e sim como uma mulher que está certa em suas convicções e, assim não tem a intenção nem a necessidade de provar ou mostrar nada a ninguém.
Quanto à homossexualidade, nem a falecida mãe nem as irmãs sabiam da “opção” sexual de Laura. Como acontece em muitas famílias, não é diferente no filme, as pessoas desconfiam, porém, muitas vezes, não chegam a perguntar. Assim, preferem não se envolver para não “confirmar” a desconfiança – aquilo que de fato já sabem, mas preferem não ver. Esse caso é mostrado claramente numa das primeiras cenas em que as quatro irmãs estão sozinhas no apartamento da mãe, discutindo a partilha dos móveis e objetos, bem como a venda do imóvel. É importante perceber que a narrativa do filme acontece linearmente, sem o recurso do flashback, entretanto, os acontecimentos são trazidos ao enredo através das falas e lembranças das próprias personagens, que muitas vezes reconhecem suas “falhas” e fraquezas, e então recorrem ao passado – uma maneira encontrada por elas para assim “legitimarem” suas irrealizações.
A principal cena do filme que retrata com maior destaque a homossexualidade é uma cena longa e o tema surge a partir de uma discussão entre as irmãs mais velhas. Selma, ao contar que a sua filha adolescente está grávida de um líder de uma seita religiosa, começa a culpar a irmã Regina, por esta ter levado a menina ao determinado culto. Lúcia e Laura tentam separar a briga entre as duas, até que um comentário sobre aborto, funciona como estopim para Laura, que “explode” em cima das irmãs, afirmando estar desapontada com o comportamento delas. Selma cita uma pergunta feita por sua filha a respeito da tia: “Mamãe, a tia Laura é sapatão?”. Laura, ofendida, questiona a intenção de Selma em fazer tal comentário. Com isso, Selma, Regina e Lúcia, com medo de ferir a irmã, acabam se esquivando como podem e, literalmente fogem, dando as costas à irmã. O silêncio é cortado pelo desabafo de Laura: “Eu gosto de mulheres. Sou sapatão, eu sou sargento, fanchona, lésbica, eu colo velcro, eu gosto de colocar aranha pra brigar”.
O filme como um todo apresenta uma linguagem repleta de termos exageradamente coloquiais, muitas vezes vulgar. Laura, utiliza essa linguagem quando revela a sua homossexualidade, suas palavras dizem muito sobre a personagem, e com isso, ela se apropria de termos e gírias de conhecimento geral, comumente usados para retratar (e estereotipar) as homossexuais. As expressões “colar velcro” e “colocar aranha pra brigar”, numa vulgar referência ao sexo entre lésbicas, já são de grande conhecimento popular – no entanto, utilizadas em tom degradante.
Certamente, esta é a cena de maior carga interpretativa, sobretudo para Paloma Duarte, que não economiza forças para mostrar muito bem a indignação de sua personagem. E continua: “Vocês não me entendem mesmo…” – uma frase que de tão usual em casos de crise identitária, acaba tornando-se clichê. As irmãs ficam comovidas, afetadas pelas palavras de Laura. A personagem então desabafa: “Pra vocês eu sempre fui aquela coisa esquisita! Incômoda! Como eu quis ser igual a vocês! Cresci brincando sozinha nesse apartamento… E vocês se arrumando pra sair! E vocês fofocando! E vocês discutindo sobre festas, homens, vestidos! E eu… Com quem que eu ia conversar?”. A personagem lésbica continua decepcionada com as irmãs e, além de criticá-las, intimamente revela a culpa que põe sobre elas, pela solidão em que viveu boa parte de sua vida. Laura conclui sua fala: “A minha família, as minhas amigas… As minhas mulheres, eu tive na rua! Não foi aqui não! Aqui eu sempre estive muito sozinha!”. As irmãs ficam em silêncio e, sem ter o que falar, acabam mudando de assunto, visivelmente sensibilizadas.
A significação da exploração do tema do homossexualismo no filme, é baseada numa tentativa de mostrar que os homossexuais são, antes de qualquer coisa, seres humanos, têm suas fraquezas e suas qualidades, como qualquer pessoa. Uma tentativa de mostrar um outro lado da realidade, um casal homossexual que vive com naturalidade, longe de promiscuidade e estereotipação – conforme a mídia geralmente evidencia. Os gays são muitas vezes vitimados por uma sociedade hipócrita que acredita estar longe de tal realidade. Assim, casos que “incomodam” e vão de encontro ao ‘status quo’, são geralmente ignorados e banidos. A Partilha, apesar de não ter a pretensão de levantar bandeiras, uma vez que o tema do homossexualismo não é o que move a narrativa, acaba funcionando como uma abertura para uma maior compreensão e familiarização do público com relação ao assunto.
Laura, após revelar-se lésbica, não é em momento algum hostilizada pelas irmãs, que, cientes de suas próprias fraquezas, não estão em condições de julgar ninguém. Cada uma delas tem o seu conflito individual, cada uma tem sua “falha” de personalidade, entretanto, o filme mostra a personagem homossexual como uma pessoa íntegra, cujo “problema” é a sua sexualidade. Assim, o público precisa ter cuidado para não achar que o “defeito” de Laura é ser lésbica. Essa pode ser considerada a “falha” do filme, que, apesar de tentar mostrar o homossexualismo como algo comum, coloca-o como um “defeito” de personalidade da personagem.
Outra cena que aborda o homossexualismo abertamente, traz o casal de lésbicas conversando, fazendo a sua própria “partilha”: Laura tenta convencer a sua namorada a ir com ela para a Alemanha, enquanto esta tenta convencer Laura a ficar no Brasil. Elas dividem os CDs, já cientes da separação. As personagens se aproximam, tristes, mas fogem uma da outra, numa tentativa de amenizar a dor que sentem. Essa cena sugere para o público um relacionamento como qualquer outro, um amor entre duas pessoas que, pelas circunstâncias externas, se vêem “obrigadas” a se separar.
A narrativa avança: as irmãs novamente estão no apartamento, desta vez à espera do corretor de imóveis e do cliente interessado na compra. Porém, Selma, muito apegada às lembranças, recusa-se a fechar o negócio, trancando-se no quarto com a chave da porta principal, na intenção de não permitir a entrada das pessoas que esperavam do lado de fora. Laura, muito irritada, resolve sair pela janela e andar pela sacada do edifício para assim entrar no quarto onde Selma escondia a chave. Transeuntes observam a cena, acreditando tratar-se de uma tentativa de suicídio. Entre as pessoas na rua, estava a namorada de Laura, que no mesmo instante corre em direção ao apartamento. Quando finalmente a chave é recuperada, a porta é aberta e ao se reencontrarem, as duas lésbicas se beijam e se abraçam na frente de todos: Selma, Regina, Lúcia, o marido de Selma, o filho de Lúcia, o corretor, o comprador e seu empresário, que também esperavam entrar no apartamento. O casal decide ir junto para a Europa.
A Partilha termina com as quatro irmãs reunidas na praia de Ipanema, dançando na areia ao som de “Dancing Days”: “Abra as suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa…”. O filme convida o público a conhecer aquelas mulheres e assim, reconhecer a diversidade dos tipos humanos, sobretudo dentro do universo feminino, mulheres simples, alegres, tristes, loucas, com seus desejos e fantasias, independentemente de idade, classe social, profissão, sexualidade – independentemente de qualquer coisa. Conforme fica explícito numa das falas da personagem Regina: “Nós somos farinha do mesmo saco!”.
3. Considerações Finais
O filme, apesar dos pequenos deslizes, é bastante feliz ao tratar com naturalidade o tema do amor entre lésbicas, e assim, deixa claro que o amor entre iguais, pode parecer diferente, mas é um amor como qualquer outro.
Bibliografia:
Revista Educação, Especial Grandes Temas – Gênero e Sexualidade, Nº 2. Segmento: São Paulo, Março de 2008.
junho 17, 2008
Categorias: longa-metragem . Tags:paloma duarte . Autor: homoprojetadas . Comentários: Deixe um comentário